Não, o Governo não está a ler tuas conversas do Whatsapp

Ontem, ironicamente, pouco tempo depois de eu descobrir que um dos meus servidores de desenvolvimento foi brutalmente hackeado, e o conteúdo de alguns dos meus projectos não lançados completamente apagado, saiu em alguns jornais da praça a notícia de que o governo de Moçambique teria “secretamente” adquirido uma tecnologia chinesa da ZTE, capaz de escutar todas as chamadas, conversas de SMS, Whatsapp, Email, Viber, etc de todos os moçambicanos. Poderia dizer algo sobre este artigo mais cedo, mas o trauma de ser hackeado, bem como o trabalho de restaurar o servidor não permitiram. Mas também, a demora em responder só me ajudou, pois pude me informar mais um pouco sobre o assunto.Este artigo é apenas teórico, com base nos conhecimentos básicos que tenho sobre segurança digital, assumindo desde já o risco de estar enganado em alguns ou todos aspectos aqui tocados. Não deve ser usado como manual de segurança digital, apenas como hipóteses para discussão. Então vamos a isso.

É possivel escutar conversas de Whatsapp e Emails?

A resposta simples para esta pergunta é: Depende. Todos os serviços de troca de mensagens na Internet que possuem um número mínimo de usuários tem algum ou vários mecanismos de segurança, com o objectivo de proteger a privacidade dos seus usuários. No caso de emails do Gmail por exemplo, já começam usando protocolo SSL, o que garante que o tráfego gerado entre o seu computador ou celular e os servidores do gmail são encriptados. Governos e Operadoras podem facilmente interceptar este tráfego, mas as mensagens interceptadas estariam encriptadas e seria necessário ter acesso a chave de desencriptação para poder ler. Só a Google teria essa chave. A ZTE pode até ter acesso a chave de encriptação da Google, mas seria apenas questão do tempo para que a Google trocasse o algoritmo, logo, investir 140milhões por uma tecnologia que pode parar a qualquer momento, não faz sentido.No caso do Whatsapp, todo mundo sabe que o Facebook implementou novos algoritmos de encriptação, em que além de SSL, as mensagens ainda possuem encriptação ponto a ponto, com uma chave diferente para cada mensagem trocada. Não creio que uma tecnologia capaz de quebrar estas medidas passaria despercebida tanto para Google quanto para os milhares de especialistas de segurança que existem no mundo.Mas atenção, mesmo com todos algoritmos de encriptação que os serviços de internet usam, ainda será possivel alguém ter acesso aos dados privados dos utilizadores, caso tenha acesso as senhas de acesso do utilizador. Então, governos e outros grupos podem usar engenharia social para ter acesso a sua senha e com isso conseguir aceder a sua informação. Por isso, usar as boas práticas de definição e protecção de senhas pessoais ainda é fundamental.

Chamadas e SMS são outra história

Diferente dos serviços de Internet, chamadas normais e SMS podem ser facilmente interceptadas, e o seu conteúdo visualizado tanto por governos, quanto por operadoras. Corriam rumores de que a uns anos atrás existia um negócio nas operadoras moçambicanas em que qualquer pessoa com 20mil MT poderia ter acesso ao histórico de chamada e mensagens de qualquer cliente que quisesse. Se eu desconfiasse que uma amante está a me trair, ou quisesse ter o histórico de comunicação de algum concorrente nos negócios, bastava encontrar a pessoa certa nas operadoras e teria um CD com toda esta informação. Logo, não devia haver tanto barulho por se descobrir que o governo está a fazer isso. Afinal “todo mundo” já o faz.

E como funciona nos outros países?

O assunto de vigilância digital vem sendo comentado em todos lugares do mundo. Casos como o de Eduard Snowden, funcionário da NSA que vazou a informação de que aquela agência estaria escuntando conversas de todos americanos que quisessem correram o mundo nos últimos anos. Também ouvimos casos de conversas presidenciais sendo monitoradas por agencias de outros paises.Ainda assim, duvido que exista um software capaz de escutar todas as conversas de todos os cidadãos de um país. Se isso fosse possível, os Estados Unidos não teriam tentado criar o Prisma, que era uma proposta de lei que obrigava serviços de Internet e não só a fornecer informações privadas ao Governo. O Brasil não estaria em confusão constante com o Whatsapp por este se recusar a fornecer informações de utilizadores envolvidos em processos criminais. Afinal, era só pagar 140 milhões a ZTE e monitorar toda a população.Existe o caso especial da China onde se sensura a Internet, e por coincidencia, a ZTE que supostamente forneceu esta tecnologia ao governo moçambicano é uma companhia Chinesa. Mas a diferença aqui é que não é público que o Governo Chinês seja capaz de ler emails e conversas de usuários. E a forma mais fácil de evitar que seus usuários conversem sobre coisas proibidas usando este meio é mesmo bloquear o serviço, uma medida que qualquer provedor de Internet é capaz de fazer com alguns cliques. Se a China fosse capaz de monitorar conversas do Whatsapp, seria mais facil o deixar o serviço aberto e encontrar conspiradores contra o governo, na minha opinião pessoal.

O Governo não vai parar de tentar, mas existem soluções!

O que o público deve saber é que uma das maiores preocupações de um governo é a segurança do próprio governo. Na prática, isso vem antes mesmo do bem estar do povo. Sendo assim, e num país em conflitos como o nosso, não se espanta que o governo faça investimentos nessas medidas de segurança. Não que eu concorde com estas vigilâncias, mas entendo os motivos de quem os usa. Quem não gostaria de saber o que a sua namorada conversa com o vizinho, ou o que o seu parceiro de negócios conversa com o seu rival de negócios? É exactamente o mesmo que acontece com os governos que implementam medida de vigilância dos seus povos.Mas se o medo de estar sob uma vigilância digital ainda persiste, saiba que existem meios de permanecer anónimo na Internet, sendo o  uso do TOR uma das mais famosas. De uma forma resumida, o TOR é um navegador de Internet que garante um certo nível de anonimato na Internet. em vez do utilizador aceder directamente ao servidor do GMAIL, por exemplo, o TOR faz com que o tráfego passe por vários servidores antes de chegar ao gmail. Assim, o governo vai pensar que está a aceder a um endereço completamente diferente na Europa, enquanto na verdade está a aceder ao servidor do GMAIL nos Estados Unidos. Além disso, usar VPNs pode ser a solução. Nos próximos artigos entrarei em mais detalhes sobre a vigilância digital e as diversas formas de permanecer invisivel na Internet. 

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